{"id":4280,"date":"2021-11-20T14:00:16","date_gmt":"2021-11-20T17:00:16","guid":{"rendered":"http:\/\/editora.ufrrj.br\/?p=4280"},"modified":"2021-11-20T14:04:52","modified_gmt":"2021-11-20T17:04:52","slug":"20-11-dia-da-consciencia-negra-texto-por-mariangela-dias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/20-11-dia-da-consciencia-negra-texto-por-mariangela-dias\/","title":{"rendered":"20\/11 &#8211; Dia da Consci\u00eancia Negra; texto por Mariangela Dias*"},"content":{"rendered":"<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter wp-image-4281 size-large\" src=\"https:\/\/editora.ufrrj.br\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-1024x1024.png\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"1024\" srcset=\"https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-1024x1024.png 1024w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-100x100.png 100w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-416x416.png 416w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-300x300.png 300w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-150x150.png 150w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-768x768.png 768w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-1536x1536.png 1536w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem-600x600.png 600w, https:\/\/editora.ufrrj.br\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/imagem.png 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Dia desses, uma de minhas amigas, ao chegar para trabalhar, encontrou o maior alvoro\u00e7o. Uma funcion\u00e1ria fora assaltada em frente ao pr\u00e9dio. Levaram sua bolsa. Por sorte, n\u00e3o a agrediram. Embora a rua estivesse deserta e a mo\u00e7a tenha visto um sujeito estranho \u00e0 empresa se aproximar pela outra esquina, n\u00e3o acelerou o passo, n\u00e3o teve medo. Algu\u00e9m perguntou se ela n\u00e3o havia desconfiado. Ela, ent\u00e3o, olhou para nossa amiga, que \u00e9 negra, baixou a cabe\u00e7a, e disse \u201cAi, desculpa&#8230; Ele era t\u00e3o branquinho\u201d.<\/p>\n<p>O fato me fez lembrar o ano de 2018. Tive a oportunidade de assistir a uma palestra de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, na Fiocruz, aqui no Rio, por ocasi\u00e3o da reuni\u00e3o Anual da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira das Editoras Universit\u00e1rias. Embora ouvi-la seja um aprendizado, o que mais me comoveu foi compreender como aquela senhora havia impactado os jovens adolescentes, ali presentes para homenage\u00e1-la.<\/p>\n<p>Ouso dizer que a literatura de Concei\u00e7\u00e3o deu a eles mais que a alegria de se reconhecerem, a si e aos seus, nas hist\u00f3rias por ela contadas com maestria. Muito mais que a certeza de se saberem n\u00e3o sendo sempre os bandidos da hist\u00f3ria, os contos e romances da autora mineira os inspiraram a narrar suas trajet\u00f3rias e a sonhar outras. Eu presenciei jovens renovados em entusiasmo para se expressarem, por meio de suas artes escrita e c\u00eanica, na luta para desmanchar o racismo, \u00e0s vezes t\u00eanue, noutras escancarado, amargado por pretos e pretas.<\/p>\n<p>Racismo este que transita em todas as esferas da sociedade e n\u00e3o seria diferente, portanto, no mercado de trabalho. Caetana Maria Damasceno, em seu livro \u201cSegredos da Boa Apar\u00eancia\u201d, publicado pela Edur, em 2011, trata dos sentidos de ra\u00e7a e cor no mundo do trabalho no Rio de Janeiro, em particular sobre o trabalho dom\u00e9stico feminino. Embora o recorte temporal seja de 1930 a 1950, os temas abordados no livro ainda s\u00e3o atuais, por isso assustam. Entre outros aspectos, Caetana argumenta sobre as dificuldades que essas mulheres enfrentavam quando se dispunham a romper o \u201cpacto do sil\u00eancio\u201d. Ou seja, que uma dada \u201ccor\u201d sempre ocuparia posi\u00e7\u00f5es subalternas. E, uma vez que tal pacto fosse desfeito, como era complexo reconstruir a trajet\u00f3ria de vidas delas. Para ilustrar, a autora relata as hist\u00f3rias de duas mulheres que deixaram o emprego de dom\u00e9stica e passaram a atuar uma como pequena empres\u00e1ria e outra como gerente de uma institui\u00e7\u00e3o banc\u00e1ria:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Nestas posi\u00e7\u00f5es, envolvendo o contato direto com o p\u00fablico, os \u201cclientes\u201d e os funcion\u00e1rios superiores e subalternos \u2014 todos, por defini\u00e7\u00e3o cultural, potencialmente pertencentes a segmentos estabelecidos ou \u201cnaturalmente\u201d superiores porque \u201cbrancos\u201d \u2014 elas experimentaram muitos impasses ou conflitos, mais ou menos sutis, dependendo da situa\u00e7\u00e3o social em quest\u00e3o\u201d (p. 159).<\/p>\n<p>Ainda sofremos os efeitos de um racismo que atravessou s\u00e9culos, da\u00ed ser constante e estrutural. A luta \u00e9 pesada e n\u00e3o admite cansa\u00e7o. Trago um epis\u00f3dio citado por Djamila Ribeiro, em seu livro \u201cQuem tem medo do feminismo negro?\u201d, publicado pela Companhia das Letras, em 2019. O leitor de dado jornal, da regi\u00e3o sul do pa\u00eds, dizia que as pessoas negras t\u00eam aptid\u00e3o ao crime e s\u00e3o menos qualificadas, por esse motivo lotam os pres\u00eddios. Como bem argumentou Djamila, \u201cO coment\u00e1rio desse senhor mostra que ele ignora as constru\u00e7\u00f5es do racismo em nossa sociedade. Foram 354 anos de escravid\u00e3o e, depois, n\u00e3o se criaram mecanismos de inclus\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o negra.\u201d (p.64). Os imigrantes, por outro lado, tamb\u00e9m vieram para o Brasil sem qualifica\u00e7\u00e3o, mas receberam terras e oportunidades de trabalho, o que lhes possibilitou outra perspectiva hist\u00f3rica, conforme a autora esclareceu.<\/p>\n<p>At\u00e9 mesmo o dia escolhido para representar a luta contra o racismo recebe ataques. Assim temos visto, em particular, nas redes sociais. Ignoram os outros 364 dias e escolhem exatamente o 20 de novembro para abordarem a quest\u00e3o do respeito \u00e0 pessoa humana e n\u00e3o somente ao povo negro. Entendo que o Dia da Consci\u00eancia Negra n\u00e3o quer de forma alguma aplacar o sofrimento enfrentado por outros povos ou as lutas de grupos exclu\u00eddos. Deseja-se o respeito a toda criatura humana, seja preta ou branca. Mas quando um indiv\u00edduo sofre todo tipo de ofensa, discrimina\u00e7\u00e3o, preconceito, restri\u00e7\u00e3o de direitos t\u00e3o somente por causa de sua cor de pele, n\u00e3o fa\u00e7amos pouco caso. A dor ainda \u00e9 muita. Compreender o que passo n\u00e3o minimiza o que voc\u00ea sente. Deveria nos tornar mais solid\u00e1rios, jamais rivais.<\/p>\n<p>Nem mesmo os nossos pequenos est\u00e3o livres do preconceito. Relembro certo programa de TV que simulou o caso em que uma crian\u00e7a, de cinco ou seis anos, havia se perdido dos pais. Ficava a andar de um lado para o outro, em frente a uma loja, de um bairro comercial. A crian\u00e7a negra teve ajuda uma \u00fanica vez. A crian\u00e7a branca teve ajuda todas as vezes em que o teste foi realizado.<\/p>\n<p>O que nos faz pensar ser a crian\u00e7a negra n\u00e3o merecedora de ajuda? O mesmo que nos leva a acreditar serem os ladr\u00f5es todos pretos; cabelo bom, o oposto do crespo; n\u00e3o haver orgulho ser oriundo de uma na\u00e7\u00e3o africana; pensar nas religi\u00f5es de matriz afro-brasileiras como malignas; as m\u00fasicas negras, malditas; a mulher negra ter beleza apenas se for uma personagem de carnaval e por a\u00ed vai.<\/p>\n<p>Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, em Becos da Mem\u00f3ria, publicado pela Editora Pallas, em 2017, n\u00e3o nos deixa perder a dire\u00e7\u00e3o de que a mudan\u00e7a pode acontecer, apenas n\u00e3o vem de m\u00e3o beijada:<\/p>\n<p>\u201c[&#8230;] Acreditavam e diziam que a vida de cada um e de todos podia ser diferente. Que tudo aquilo estava acontecendo, mas muita coisa poderia mudar. E quem mudaria? Quem mudaria seria quem estivesse no sofrimento. Quem arreda a pedra n\u00e3o \u00e9 aquele que sufoca o outro, mas justo aquele que sufocado est\u00e1.\u201d (p. 136).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Escritora e servidora da Edur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dia desses, uma de minhas amigas, ao chegar para trabalhar, encontrou o maior alvoro\u00e7o. Uma funcion\u00e1ria fora assaltada em frente ao pr\u00e9dio. Levaram sua bolsa. Por sorte, n\u00e3o a agrediram. 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